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Como a observação de aves pode ajudar na conservação da arara-azul-de-lear?

Dizem por aí que no sertão da Bahia existe um lugar muito parecido com Marte e que lá vivem marcianos azuis providos de asa. Será verdade?!

A região do Raso da Catarina possui rochas de arenito ricas em óxido de ferro, o que confere a elas uma cor avermelhada. Essas rochas formam paredões que são de extrema importância para uma ave muito especial: a arara-azul-de-lear. A espécie é endêmica da Caatinga e existe apenas no norte do estado da Bahia, na região do Raso da Catarina e do Boqueirão da Onça.

Diversos fatores afetam a sobrevivência na natureza dessas araras, que estão classificadas como ameaçadas de extinção na categoria “criticamente em perigo”, segundo a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). Podemos citar como atividades que impactam a sua conservação:


– a caça e o tráfico para abastecer o comércio ilegal de animais silvestres. Os caçadores acessam os paredões onde nas araras fazem seus ninhos e capturam ovos e filhotes; – a competição com abelhas africanizadas invasoras por cavidades para nidificar; – os distúrbios nos dormitórios e sítios reprodutivos. Atividades de rally e motocross que ocorrem próximos a essas áreas causam estresse nas araras e a não ocupação de cavidades para reprodução. – a degradação do ambiente e, consequentemente, dos recursos necessários para a sobrevivência da espécie, como o desmatamento e o sobrepastoreio afetando a disponibilidade de alimento, causando impacto no pareamento de novos casais reprodutivos, na viabilidade e expansão populacional das araras; – a falta de áreas protegidas e de reprodução onde existam manchas da palmeira licuri, o principal recurso alimentar da espécie; – as mortes por tiros devido ao ataque das araras às plantações de milho; – os choques elétricos em redes de distribuição de energia, dentre outros.

A arara-azul-de-lear foi um enigma por muitos anos para a Ornitologia. As aves chegavam por volta do ano de 1850 na Europa pelo tráfico. À época, ainda se tratava de uma espécie não descrita pela Ciência e ninguém sabia ao certo de onde elas vinham. Apenas em 1978, após anos de buscas frustradas em campo, a arara-azul-de-lear foi localizada pelo famoso ornitologista Helmut Sick.


Ainda muito se confunde sobre as araras-azuis que habitam nosso país. Nós já tivemos quatro espécies de araras-azuis no Brasil e hoje só possuímos três, sendo que uma delas apenas em cativeiro. A arara-azul-pequena (Anodorhynchus glaucus), que vivia no sul do Brasil e hoje é considerada extinta; a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), que existe apenas em cativeiro, com projeto de soltura próximo a ser realizado na sua área de distribuição histórica na Bahia; a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus), muito conhecida no Pantanal, mas que também habita áreas de Cerrado e Amazônia; e a arara-azul-lear (Anodorhynchus leari), que destaco neste artigo.


E quais seriam os melhores locais para observar e fotografar a arara-azul-de-lear? A região de Canudos abriga um dos maiores sítios reprodutivos dessas araras e oferece uma ótima situação para fotografia, principalmente durante o período reprodutivo, que vai de meados de outubro a maio, quando elas passam bastante tempo pelos paredões para chocar seus ovos e alimentar os filhotes. O observador só precisa se posicionar em cima dos paredões, onde as araras voam a uma altura abaixo dos seus olhos, com um lindo fundo vermelho das formações de arenito.

Já observei as araras nos paredões muitas vezes e sempre me arrepio e choro de emoção na primeira revoada da manhã, ainda na penumbra. São centenas delas vocalizando e voando em cima dos paredões até que se dispersam em direção às áreas de alimentação. É uma experiência incrível!


Outro local interessante de fotografar as araras são as áreas de alimentação, principalmente em Euclides da Cunha. É possível observá-las pousadas nas palmeiras de licuri e se alimentando com cachos dos coquinhos pendurados no bico. Normalmente os licuris não crescem muito por serem palmeiras de baixo porte, o que possibilita boa visão das araras.

E sabia que você, que já foi fotografar as araras ou ainda vai, pode contribuir com a pesquisa e a conservação desses animais fantásticos? Quer saber como?

Desde 2008, o Grupo de Pesquisa e Conservação da Arara-azul-de-lear estuda e monitora o sucesso reprodutivo nos ninhos dessas aves. Contando, com o suporte técnico e científico de diversos parceiros, essa pesquisa trouxe informações inéditas sobre a biologia e a ecologia dessa espécie tão emblemática e, a partir dela, novas perguntas surgiram na busca por aprimorar suas estratégias de conservação.

Nos últimos anos, as pesquisadoras e os pesquisadores reuniram dados demográficos, genéticos, moleculares e sanitários da arara-azul-de-lear, além de terem aprimorado os métodos para marcação de psitacídeos, como o uso de equipamentos de GPS e de colares com medalhas numeradas.


Os colares com medalhas numeradas vêm sendo uma alternativa adotada pelo projeto, visto que as anilhas convencionais são ilegíveis à distância, mesmo com o uso de binóculos e lentes teleobjetivas. Os psitacídeos, família que abriga o grupo das araras, possuem patas curtinhas e, quando as aves estão pousadas, elas se sentam por cima delas, tornando impossível a leitura da anilha. A medalha resolveu esse problema, possibilitando a identificação à distância das araras e gerando informações importantíssimas sobre o comportamento dos indivíduos, padrão de dispersão dos juvenis, formação de casais, longevidade, taxas de sobrevivência e maturidade sexual.

Segundo os pesquisadores, a marcação individual dos filhotes também tem permitido a expansão das pesquisas para além dos principais sítios reprodutivos da espécie, dando início aos estudos sobre as formas de uso do habitat e à descoberta de novas áreas de alimentação e descanso das araras – para, assim, propor ações de conservação para a sua proteção!


Os estudiosos ainda informaram que, desde 2015, 50 filhotes já foram marcados com as medalhas numeradas e estão voando pelos céus da Caatinga! Até o momento, já foram registrados 24 reavistamentos feitos por moradores locais e observadores de aves, que visitaram a área de ocorrência da espécie e entraram em contato com o projeto relatando o encontro.


E é aí que chega a sua hora de ajudar, caro observador. Você, que já esteve na área de ocorrência das araras, volta lá na sua pasta de fotos e confere se alguma delas está usando um colar com medalha. E para você, que ainda vai, lembre-se de tentar fotografar alguma. Todos nós podemos ajudar no monitoramento das araras e colaborar com as pesquisas científicas para a sua conservação!

Por favor, entre em contato com o Grupo de Pesquisa e Conservação da Arara-azul-de-lear pelo Instagram, Facebook ou e-mail (projetoararaazuldelear@gmail.com) caso tenha registrado alguma arara com medalha e informe a data e o local do registro. Os pesquisadores responderão com informações sobre o indivíduo observado, o sexo, quando e onde nasceu, e há quanto tempo está usando a medalha. Legal, né?

Bom saber que, além de observar e fotografar as aves na natureza, a gente pode contribuir com a ciência e com a conservação da espécie.




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